Quando assistimos um filme, série, desenho, anime ou qualquer obra cultural que possa impactar nossas vidas é provável que levemos mensagens e contextos dessas coisas para nossa vida. De vez em quando, me pego pensando em como personagens de determinados filmes que eu tanto amo reagiriam em tais situações, uma música, uma trilha sonora, tudo isso vai influenciar à você retornar para aquela obra de forma catártica, claramente se você tiver algum vínculo com ela. Ás vezes isso pode ser um problema, imagine passar vinte e quatro horas por dia que você vive em algo especial como um filme ou uma série, quem sabe até vivenciar músicas como se elas estivessem tocando em sua vida… Bem, não sei a razão exata, mas Rick and Morty me fez pensar se eu poderia ser uma pessoa melhor.

A série animada de 2013, criada por Justin Roiland e Dan Harmon reúne um panteão de conceitos e gêneros insanamente nerds e conta a história de Rick Sanchez, um cientista velho e maluco que junto com seu neto Morty desvenda inúmeras aventuras do multiverso através de sua arma de portais, por ser uma animação adulta, Rick and Morty traz humor negro, sexo, violência, sangue, palavrões e umas boas doses de filosofia.

Rick Sanchez.

O grande triunfo de uma animação que tem um formato bastante padrão (que pode ser até assimilado com os protagonistas de De Volta para o Futuro) é justamente o leque de possibilidades e invenções que um episódio só pode trazer. Não perdemos tempo tentando explicar conceitos e histórias, por que Rick é acabado psicologicamente? Pouco nos f*demos pra isso, obviamente teorias e mistérios surgem, mas esse não é o foco, em uma cena de 37 segundos, Rick and Morty fazem um filme inteiro, por meio dos recursos animados e de liberdade criativa em roteiros, os episódios curtos (20 – 22 min) podem ao mesmo tempo contar uma história complexa e cheia de referências (com uma forte bagagem de cinema, tevê, literatura, etc) e divertir.

Claramente, é fácil identificar a filosofia impregnada nos personagens, onde realidades diferentes, dimensões, um multiverso e milhões versões de você existem ao mesmo tempo, chega ser insignificante ser você, chega a ser insignificante viver! Por isso a vida nos moldes de RAM é desprezível, o peso de uma morte não é grande como o peso em um filme de drama por exemplo que pode utilizar uma única morte para toda uma linha de história acontecer, pessoas morrem o tempo todo (principalmente pelas mãos de Rick) e é assim que a vida continua, em meio a um universo tão grande e perigos tão imensos, chega a ser inútil almejar e buscar por razões maiores, um Deus, uma salvação, um paraíso… Não, nada disso são coisas pertencentes ao existencialismo dos personagens da série, estamos sozinhos no universo e logo logo vamos morrer.

Betty e Rick.

Pode parecer meio negativo, mas ao mesmo tempo a animação é inteligente quando não entrega as questões filosóficas de forma edificante, nem de um lado nem do outro, não inspira você a se desprender das questões do mundo e ser um Rick da vida, mas também não inspira a sermos os grandes questionadores, os desbravadores do mundo e sempre respondermos questões imensas com significados também fúteis. Só nos inspira a viver nossas vidas. Rick é um acabado de todas as formas, mas encontra sua existência ali: no seu círculo familiar, interagindo com Morty, Summer, envolvendo-se mais com sua filha Betty e xingando o genro, é ali que encontramos a existência de fato e a necessidade de continuarmos vivendo. Ser o grande “não existente” e o niilista colegial não te faz mais inteligente, mas quem sabe com Rick and Morty podemos nos tornar pessoas melhores, vivendo todo dia como o último, viver.

 

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