Este artigo é o segundo de uma série de textos analíticos acerca da saga Ghost in the Shell, visando elucida-la e fazer pontes entre suas diferentes mídias, além de promover um debate sobre os dilemas e críticas feitos pelas obras e suas referências históricas e sociológicas.  Lançado em 2004, como continuação direta da animação de 1995, Ghost in the Shell 2: Innocence, foi produzido com um orçamento estimado em 20 milhões de dólares, e teve uma arrecadação estimada em $9.789.651, segundo o Box Office. Um filme complexo, tido por muitos como confuso, e completamente recheado de referências diversas, Innocence é certamente um filme controverso em meio ao universo Ghost in the Shell, mas nem por isso menos necessário na videografia da saga.

A animação se inicia com o caso em torno do qual se desenrolará toda a trama principal do longa, e os acontecimentos são diretamente posteriores aos da primeira animação, com a Major na lista de desaparecidos em serviço após o incidente com o Mestre das Marionetes. Batou é então designado para substituí-la, e se vê frente a um caso intrigante: gynoids (androides com aparência feminina) domésticos que começam a assassinar seus donos e se suicidar, e presencia um desses suicídios (precedido por um pedido de socorro vindo da própria gynoid), após ser designado, em conjunto com o ex-policial Togusa, para trabalhar no caso.

Nos créditos iniciais do filme, temos uma animação em CGI mostrando o processo de produção de um desses gynoids, e é interessante a notável semelhança com o processo de divisão celular e desenvolvimento de um zigoto humano, remontando a uma das discussões principais do universo Ghost in the Shell: até que ponto um robô é feito à imagem e semelhança humana?

Após a sequência de casos de assassinato envolvendo as gynoids do modelo 2052 “hadaly” da empresa Locus Solus ter como vítimas membros do governo e oficiais da polícia, a hipótese de terrorismo é levantada, o que faz com que a Seção 9 seja envolvida no caso. Batou e Togusa caem em campo na procura por pistas, sendo levados ao laboratório forense da polícia, onde uma das gynoids estava sendo examinada, e é nesse momento em que temos um dos momentos mais profundos e reflexivos da trama, traduzido num diálogo entre Batou e Togusa com Haraway, a técnica forense responsável pelo local, sobre a natureza dos androides e o que motivaria seus suicídios ou os homicídios cometidos por eles. As referências levantadas nesse diálogo são de uma complexidade incrível, citando desde as leis da robótica de Isaac Asimov, até a biografia de René Descartes, filósofo iluminista e tido como criador do racionalismo moderno.

A conversa trata sobre a maneira como o consumismo exacerbado fomenta o descarte e a obsolência acelerada de modelos de androide, especialmente os domésticos, criados e recriados de maneira a se tornarem cada vez mais parecidos com os humanos. de acordo com a própria Hallaway, seria uma maneira de externar uma antiga vontade humana: a de construir por si só, uma outra vida, e uma dessas formas na visão dela, seria a maternidade/paternidade, quando diz “em outras palavras, a paternidade é um método rápido de entender um antigo sonho humano: como construir um androide”. Ela então revela que as gynoids foram equipadas com uma configuração diferente da pertencente a um androide doméstico, sendo incluídos nelas órgãos sexuais. Algo não ilegal, mas não necessariamente bem visto, explicando assim o porque as famílias das vítimas não entraram com processos judiciais contra a Locus Solus, preferindo acordos fora dos tribunais.

As pistas levam então ao assassinato de Jack Walkson, um funcionário de alto escalão da Locus Solus, cujo corpo acabara de ser encontrado brutalmente destruído em território pertencente a um dos ramos da Yakuza, a grande máfia japonesa. Um dos líderes da máfia daquela região estava entr as vítimas das gynoids, e a tradição dizia que o líder a assumir deve vingar a morte do líder anterior, sendo essa a possível causa da morte do funcionário, esquartejado por um ciborgue ilegalmente modificado. Essa hipótese é confirmada quando Batou e Togusa invadem a sede local da Yakuza, encontram e eliminam um ciborgue ilegal com as mesmas especificações do que teria assassinado Walkson. Na cena do crime, Batou recolhe uma fotografia em 3D de uma menina, e acaba levando para casa.

A partir daí vemos as implicações do envolvimento de Batou no caso e um pouco de seu cotidiano e pensamentos, seja se perguntando onde estaria a Major, ou seguindo em sua rotina diária após o trabalho, em comprar comida para sua cadela em uma loja de conveniência e ir para casa. E é um desses dias comuns que culmina com um ataque ao seu cybercérebro, criando uma ilusão de que as pessoas na loja de conveniência estão tentando lhe atacar, quando na verdade ele é quem acaba atirando no próprio braço e é parado pelos colegas de trabalho Ishikawa e Togusa, quando já está prestes a atacar o dono do estabelecimento. Considerando que o corpo ciborgue de Batou é de primeira linha, não haveriam muitas pessoas capazes de hackear seu cybercérebro, e concluem que seria uma forma de causar escândalo e desestabilizar a investigação da Seção 9, que passa a ser extraoficial e uma informação conseguida em um estranho festival religioso leva Batou e Togusa para a mansão de Kim, hacker ex-militar que nutre uma obsessão por bonecos, ao ponto de tentar transformar-se em um.

E é nessa parte da animação que a narrativa se torna mais complicada. Ao encontrarem Kim em sua mansão – em cujo hall de entrada notam-se duas estátuas, uma da Major com o corpo infantil após o incidente com o Mestre das Marionetes, acompanhada por pequenas cartas com letras formando a palavra hebraica AEMAETH, e da cadela pertencente a Batou – este lhes revela que a Locus Solus mantém sua linha de produção das gynoids Hadaly em um navio. No entanto, algo ocorre e Togusa tem seu cybercérebro hackeado, o que cria ilusões e mais ilusões, numa espécie de inception, que acaba sendo parado por Batou, que revela que desde o início já compreendia o que se passava, mas se deixou cair na isca (desde o incidente na loja de conveniência) por tempo suficiente para ser capaz de confirmar a conexão entre a Locus Solus e o hacker Kim, configurando assim uma obstrução de investigação. Por conta própria então, Batou invade o navio da Locus Solus e é atacado por uma série de gynoids, e para sua surpresa, em uma delas está a consciência cibernética de Motoko Kusanagi, a Major, que o auxilia em sua missão, que leva a uma sala onde crianças “contrabandeadas” são mantidas encapsuladas e tem o seu Ghost absorvido continuamente (até atingirem um estado de demência que culminava num estado vegetativo) para ser transferido às gynoids sexuais, na intenção de dar-lhes um toque a mais de realismo, deixá-lo menos androide e mais “humano”, embora para fins execráveis. É revelado então, que o funcionário assassinado da Locus Solus tentava combater a utilização dessas crianças, instruindo algumas delas a fazerem as gynoids assassinarem seus donos, como forma de chamar a atenção da polícia.

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Um longa-metragem denso, lento e recheado de referências complexas, nem sempre fáceis à compreensão do expectador. Um ponto interessante no filme são os diálogos permeados de citações (que vão de Max Weber ao Buda, passando por trechos da bíblia e por poetas clássicos japoneses), que podem ser entendidas como referências a uma tradição literária nipônica durante o período Heian (Séc. VIII a XII), que consistia em membros da elite letrada que dialogavam entre si por meio de citações poéticas, como forma de ostentar seu grande conhecimento das obras clássicas. Já no que diz respeito às críticas sociais trazidas no filme, um ponto delicado levantado é a questão do tráfico de crianças para a exploração sexual na Ásia, em especial no Sudeste Asiático (embora na animação essa exploração se dê de forma muito mais indireta).

As referências são diversas e permeiam questões como a filosofia Zen, a mitologia judaica, os estudos platônicos, a cyberfilosofia (um ramo recente da filosofia trazido no filme por meio dos dilemas morais envolvendo homem e máquina), mas sobretudo se concentram na literatura de ficção científica clássica que enfoca as relações entre homens e robôs. Um exemplo é o nome dos modelos de gynoids “Hadaly” que são investigados, já que Hadaly é o nome de uma mulher robótica na obra “The Future Eve”, publicada em 1886, do autor Auguste Villiers de l’Isle-Adam (inclusive é a obra responsável por popularizar o termo “androide”). Outra referência é a técnica forense Haraway, possivelmente inspirada em Donna Haraway, escritora feminista e autora do Manifesto Ciborgue, de 1985. Também são citadas as Leis da Robótica de Isaac Asimov, autor da saga Robots, uma das inspirações do filme Eu, Robô, estrelado por Will Smith em 2004.

Já os cenários são um deleite à parte. Desde a primeira animação, em 1995, o diretor Mamoru Oishii nos apresenta a um Japão com uma nova capital, Newport City (posteriormente é explicado na série animada que Tokyo foi destruída durante a terceira e a quarta guerra mundiais), que possui uma estética que ora lembra a Tokyo dos anos 90, ora lembra cidades como Bangkok, e na qual ruínas e escombros ainda são parte da paisagem. Em Innocence, os cenários são de uma importância tremenda, seja representando bem a melancolia do momento ou escondendo easter eggs interessantes, como a cena em que o cybercérebro de Togusa é hackeado por Kim. Podemos concluir então, que embora lento e confuso em alguns momentos, Ghost in the Shell 2: Innocence é um bom filme para quem busca referências sobre robótica e fomentar a discussão principal trazida no longa(e levantada ao longo de toda a saga): afinal, deve haver algum código de ética específico nas relações entre tecnologia robótica e humanidade?

“Se nossos deuses e esperanças não são nada além de fenômenos científicos, então deve ser dito que nosso amor também é científico” – L’ Ève Future.

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